Do jornal A-Info 83, acesse aqui!

Uma   vez   que  a   capacidade   de   trabalho   é,   como   qualquer   instrumento   de trabalho, um capital acumulado, uma propriedade coletiva, a desigualdade de salário e de fortuna, a pretexto duma capacidade desigual, é Injustiça e roubo! PROUDHON, O que é a propriedade?

A autogestão está na moda! 

Saída duma Universidade em crise, a palavra irrompeu no vocabulário social, banindo o termo   gestão operária consagrado pelo movimento sindicalista revolucionário do período heróico.   Contudo, contrariamente à gestão operária que a carta de Amiens definiu e que declara:

"Na tarefa reivindicativa quotidiana, o sindicalismo pretende a coordenação dos esforços operários, o acréscimo do bem-estar dos trabalhadores pela obtenção de melhorias imediatas,   como a diminuição do número de horas de trabalho, aumento de salários, etc. Mas esta tarefa é apenas um dos aspectos da obra do sindicalismo; esse prepara a emancipação integral que só a   expropriação capitalista permite atingir; preconiza, como meio de ação, a greve geral e considera   que o sindicato, hoje agrupamento de resistência, será no futuro o grupo de produção e repartição, base da reorganização social."

O termo autogestão permaneceu uma fórmula de limites imprecisos. As pessoas marxistas dissidentes tentaram definir lhe alguns aspectos referindo-se às experiências iugoslava e argelina, mas as   articulações burocráticas que serviram de suporte a estas experiências limitaram o seu campo que, de qualquer modo, se situava num esquema que mantinha a centralização e as hierarquias sem qualquer afinidade com a idéia que um anarquista tem do socialismo.

Os livros e revistas que pretendem esclarecer o problema da autogestão têm-nos deixado   insatisfeitas.

Reuniram e comentaram inúmeros textos teóricos antigos e conhecidos, o que é em si   louvável, mas evitaram tirar conclusões claras e realistas porque isso os levava a contradizer os   teóricos "geniais" e os partidos políticos de esquerda ou de extrema-esquerda que tinham, não direi tentado estas experiências, mas deixado desenvolvê-las com uma má vontade evidente, na esperança que soçobrassem por si mesmas. Ao escrever isto penso, em particular, no governo reacionário da Argélia que algumas pessoas "ingênuas" nos quiseram fazer tomar por um governo revolucionário.

Perante esta incapacidade das pessoas marxistas "puras e duras" para nos revelarem o   conteúdo exato da palavra autogestão sem a desfazer ou camuflar sob as frases ocas, grandiloquentes e sofrivelmente obscuras do catecismo marxista, se é levada a pensar que esta palavra forjada por pessoas intelectuais, não tinha no seu espírito mais ambições que as contidas na sua etimologia. Isto é, que se tratava da gestão duma empresa, dum serviço ou duma administração por todas aquelas que, duma maneira ou doutra, participavam no seu funcionamento. 

Nada mais!

Talvez isto bastasse a um espírito tacanho para quem sussurrar a palavra equivale à realização do fato. Mas para o operário e, em particular, para o revolucionário interessado na autogestão   surgem certos problemas. Problemas que, considerados evidentes, nunca são abordados. A ausência de respostas precisas a estas questões criou uma tal confusão nos espíritos e à volta da palavra que se pôde ouvir o próprio sr. Guy Mollet defender a autogestão num artigo do "France Soir", sem provocar riso ou indignação. 

São estes problemas que tenho intenção de examinar a fundo. Isto terá talvez a vantagem de fazer refletir sobre uma matéria complexa, o que me parece preferível a continuar a titubear um termo vazio de conteúdo.

Quando se lança a fórmula "gestão operária", aparentemente mais apropriada que a de   autogestão, as pessoas jovens intelectuais marxistas respondem com um sorriso superior que "se   estão nas tintas". 

Vejamos! 

Proponham-lhes, uma vez que "se estão nas tintas", adotar a primeira das fórmulas e vé-lo seis   protestar como verdadeiras entidades.

Deve haver alguma razão para esta atitude, não? 

Quando se fala em autogestão, uma primeira pergunta acode ao espírito: autogestão, para   quê, em proveito de quem?

A participação na gestão duma empresa só tem interesse para o operário se transformar as suas condições de vida. Gerir em comum uma empresa que mantém intactas as suas estruturas de   classe consistirá, para os operários, em gerir a sua própria miséria, a sua própria exploração. E o que confere à empresa as suas estruturas de classe são as diferenças de remuneração, a manutenção duma autoridade que excede o quadro da tarefa a realizar, a repartição do lucro da empresa, a distribuição da mais-valia criada pelo trabalho de todos, os privilégios do enquadramento e, enfim, a posse da empresa.

Há uma interrogação que exige uma resposta prioritária. Serão as pessoas intelectuais marxistas partidárias da abolição de todos os privilégios de classe no seio da empresa? Se a sua intenção é essa, não há mais que uma classe diferenciada pela natureza da tarefa a realizar, avaliada   de maneira igualitária em todos os planos, econômico, social e moral. Não existe mais que uma categoria de pessoas assalariadas, independentemente da função realizada. Todas são operárias, manuais ou intelectuais ou empregadas dos serviços, como o tinham reivindicado os grandes congressos da organização operária antes e depois da Comuna.

A resposta a esta interrogação não nos é dada somente pelas condições econômicas das   trabalhadoras "dos países ditos gestionários", mas por uma autêntica revolucionária marxista tocada pelo espírito libertário. Escutemos Daniel Guérin:

"É assim que, embora marcando como fim último e a atingir por "etapas" o enfraquecimento   da moeda e a distribuição da pletora segundo as necessidades de cada uma; embora visando a associação autogestionária de agricultoras e artesãs, a reorganização das cooperativas de comércio,   o marxismo “libertário” não abole dum dia para o outro a concorrência, as leis do mercado, a remuneração segundo o trabalho realizado, a pequena propriedade camponesa, artesanal e comercial".

Vejam! Guérin tem toda a razão para não utilizar a fórmula "gestão operária"! O que Guérin nos diz é exatamente o que nos dizem todos os outros partidos marxistas, quer tenham tomado ou não o poder. Amanhã o almoço será grátis! 

Oh! desculpem-me! 

Amanhã o Estado, com os privilégios de classe, desaparecerá gradualmente. A Argélia, como a Iugoslávia, queridas a Guérin, são exemplos verdadeiramente edificantes!

Se amanhã na empresa autogerida, permanecerem diferenças econômicas, reconstituir-se-á   uma nova classe dirigente que defenderá por todos os meios os seus privilégios de classe!

As pessoas anarquistas pensam pelo contrário que é necessário destruir todos os privilégios de classe, sem excepção, de modo que, nos momentos difíceis que se seguem às transformações   econômicas, o povo possa evitar as facilidades que lhe propõem as pessoas políticas socialistas de matizes diversos e de que o exemplo mais ilustre é a N. E. P. ( * ) imposta por  Lenin e que foi o dobre de finados da revolução russa.

Na realidade as pessoas marxistas partidárias da autogestão não estão dispostas a sacrificar ao socialismo as situações econômicas privilegiadas que as aguardam à saída da Universidade, e   devo dizer, pela minha parte, que a experiência chinesa em que estas revolucionárias de casaca são enviadas a sujar as mãos na mina ou na fábrica deverá ser retida pelo movimento operário do   nosso país. Mas apostamos também que todas estas intelectuais marxistas encarniçadas em defender o seu lugar vão declarar que somos "anarquistas poeirentas". Foram ensinadas por cinqüenta anos de experiência socialista que a gamela era tanto melhor quanto mais justificada por um palavreado "revolucionário" que as não põe em perigo.

As trabalhadoras interrogam-se com inquietação quanto ao que poderão ganhar com a autogestão da sua empresa. Pesam as vantagens e os inconvenientes que resultarão para elas, sendo o principal e aquele que mais as faz refletir, a responsabilidade. Porque a responsabilidade que assumirem na empresa vinculará a sua própria situação econômica.

E abordamos o problema humano, o problema da pessoa diante da responsabilidade, o problema da passividade que resulta dum certo servilismo sobretudo quando combinada com condições de existência econômicas e morais aceitáveis. A trabalhadora, com ou sem razão, vê mais claramente o benefício que poderá tirar duma tal experiência os "quadros" econômicos, políticos ou espirituais, que as vantagens que ela mesma poderá obter.

As realizações "socialistas" através do mundo inspiram-lhe uma desconfiança muitas vezes justificada.

Mas uma outra série de perguntas se põe ao mundo do trabalho. Estas perguntas são de ordem técnica. Dizem respeito ao funcionamento da empresa em que está empregada e onde a sua única preocupação consiste, neste momento, em efetuar o menos mal possível o trabalho parcelar que lhe é confiado e no qual deverá, caso concorde, aceitar uma parte da responsabilidade global.

É preciso tirar rapidamente algumas ilusões à juventude para quem a autogestão se recita como um credo.

Todo o trabalho coletivo necessita dum certo número de coações. Quem determina estas   coações? Qual será a sua duração? Como se estabelecerá a ordem das operações necessárias à   fabricação? Quais são os organismos que decidirão da escolha dos operários susceptíveis de a efetuarem? Qual será a estrutura dos organismos verticais que permitirão a ligação entre o gabinete   de estudo e o fabrico? Quais serão as ligações horizontais que, em cada escalão, permitirão a   harmonização das tarefas que forçosamente permanecerão parcelares. Qual será o mecanismo que determinará o preço de custo de fabrico bem como o preço de venda do objeto fabricado? Os descontos necessários aos investimentos na empresa, os que são consentidos aos serviços exteriores  que a empresa utiliza? Quais serão os organismos que permitirão o abastecimento em matéria-primas e o escoamento dos objetos fabricados? Quem determinará e por meio de que critérios, o fabrico da empresa e o seu ajustamento com a economia global? Qual será a parte consentida na empresa, à liberdade de escolha da tarefa a realizar? Como é que o operário intervirá no escalão onde se tomam as decisões globais? Quais serão os seus direitos e deveres? Onde passará   exatamente a linha que delimita a liberdade e a coação coletivas? 

Eis um certo número de pontos técnicos que será necessário definir dispensando os ensinamentos que nos deixaram os "grandes antepassados" e aos quais vai ser necessário dar  respostas precisas se se quer que a gestão operária deixe o domínio das doces e inocentes manias   para se traduzir numa realidade concreta.

De qualquer modo, é necessário que a sociedade autogerida funcione e funcione de pronto.   As pessoas do nosso século, nas sociedades como a nossa, estão habituadas a um certo gênero de vida. É despropositado imaginar que centenas de milhões de pessoas vão, dum dia para o outro,   considerar a gestão operária como um credo e abandonar o que, com razão ou sem ela, consideraram como essencial. Só uma situação revolucionária pode criar esse instante de entusiasmo que permite os kibboutz em Israel e as coletividades de Aragão. A gestão operária é   pois inseparável duma tática e duma estratégia revolucionárias. Ela não é nem pode ser uma parte   dum conjunto que transforma toda a atividade humana. Na realidade, é necessário cada vez mais que a gestão operária se torne digna de "crédito", o que atualmente não é apesar da utilização do método Coué. É necessário responder clara e nitidamente às interrogações que as pessoas põem.

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