texto da revista anarquista Aurora Obreira 91

O sistema de Cabet, R. Owen, dos Moraves, de Campanella, de Morus, de Platão, das pessoas cristãs, de Marx, etc, sistema comunista, governamental, ditatorial, autoritário, doutrinário, parte do principio de que cada pessoa é essencialmente subordinada à coletividade;  que somente dela ela obtém seu direito e sua vida; que a pessoa cidadã pertence ao Estado como criança à família; que ela está em seu poder e posse, na palma da mão, e que lhe deve submissão e obediência em tudo.

Em virtude deste princípio fundamental da soberania coletiva e da subordinação, a escola Marxista tende, na teoria e na prática, a remeter tudo ao Estado ou, o que dá no mesmo, à comunidade: trabalho, industriam propriedade, comércio, instrução pública, riqueza, assim como a legislação, a justiça, a polícia, as obras públicas, a diplomacia e a guerra, para em seguida o todo ser distribuído e repartido, em nome da ditadura do proletariado, do Estado, a cada pessoa cidadã, parte da grande família, segundo suas aptidões e suas necessidades.

O primeiro movimento, o primeiro pensamento da democracia trabalhadora, ao buscar sua lei e ao se colocar como antítese à burguesia, deveria voltar-se contra essas suas próprias máximas: à primeira vista d’olhos, é isto que se deduz do exame do sistema marxista.

Qual é o princípio fundamental da antiga sociedade, burguesa ou monarquista, revolucionada ou de direito divino? É a autoridade, seja que se a faça vir do céu ou seja que se deduza, com Rousseau, da coletividade nacional. Da mesma maneira, assim disseram e assim fizeram as pessoas marxistas. Elas submetem tudo à soberania da ditadura proletária, ao direito do partido único; sua noção de poder e de Estado pe absolutamente a mesma da de suas antigas senhoras e donas. Que o Estado seja intitulado de império, de monarquia, de república, de democracia ou de comunidade é evidentemente sempre a mesma coisa. Para as pessoas dessa escola, o direito da pessoa e da cidadã depende inteiramente da soberania da ditadura proletaria; sua própria liberdade é dela uma espécie de emanação. As pessoas marxistas podem de consciência tranquila, jurarem bandeira e cantarem hinos nacionais como se da Internacional fossem: sua profissão de fé e a receita de bolo marxista prescreve esse fortalecimento exagerado do Estado totalitário.

 

O “Comunismo”: Estado máximo

O ciclo de opressão e exploração não se rompe no comunismo marxista.

A propriedade permanecia sempre uma concessão do Estado, único proprietário natural do solo, como representante da comunidade nacional. Assim fizeram também as pessoas comunistas: para  elas a pessoa foi suposta, em principio, ter do Estado todos os seus bens, faculdades, funções, honras, mesmo talentos, etc. Não existiu diferença senão de aplicação. Por razão ou por necessidade, o antigo Estado encontrava-se mais ou menos tomado; uma multidão de famílias, nobres e burguesas, saíram mais ou menos da indivisão primitiva e formaram, por assim dizer, pequenas soberanias no seio de uma maior.

O objetivo comunismo foi de fazer retornar no Estado todos estes fragmentos de seu domínio; de modo que a revolução democrática e social, no sistema marxista, não seriam do ponto de vista de princípio, senão uma restauração, o que quer dizer um retrocesso.

Desta forma, como um exército que tomou os canhões do inimigo, o comunismo não fez outra coisa senão voltar contra o exército de pessoas proprietárias sua própria artilharia. Sempre as pessoas escravas imitam as pessoas senhoras.

 

Da associação

Como meio da realização, independentemente, da força pública de que ele ainda não podia dispor, o partido comunista afirmava e preconizava a associação. A idéia de associação não é nova no mundo econômico; além disso, são os Estados de direito divino, antigos e modernos, que fundaram as mais poderosas associações e delas deram as teorias. Nossa legislação burguesa (códigos jurídicos das várias naturezas) dele reconhece vários gêneros e espécies. Que acrescentaram a isso as pessoas teóricos marxistas? Absolutamente nada. De inicio a associação foi para elas uma simples comunidade de bens e de lucros; às vezes se fez dela uma simples participação ou cooperação, ou bem uma sociedade em nome coletivo ou comandita.

Mais frequentemente entendeu-se por associações operárias poderosas e numerosas companhias de trabalhadoras subvencionadas, comanditadas e dirigidas pelo Estado, atraindo a elas a multidão operária, monopolizando os serviços e as empresas, invadindo toda a industria, toda cultura, todo comércio, toda função, toda propriedade, abandonando os estabelecimentos e explorações privadas; aniquilando, esmagando em torno delas toda ação individual, todo domínio distinto, toda vida, toda lilberdade, toda fortuna, absolutamente como fazem em nossos dias as grandes sociedades anônimas.

 

A pretensa ditadura das pessoas proletárias

É assim que, nas concepções marxistas, o domínio público devia levar ao fim de toda propriedade; a associação desencadear o fim de todas as associações distintas ou sua absorção numa única; a concorrência voltada contra ela mesma deveria conduzir à supressão da concorrência; a liberdade coletiva, enfim, englobar todas as liberdades corporativas, locais e particulares.

Quanto ao governo, as suas garantias e as suas formas, a questão era tratada como consequência: tanto como associação e o direito de cada pessoa, ela não se distinguia por nada de novo; era sempre a antiga fórmula, salvo o exagero comunista. O sistema político, segundo a teoria marxista, pode se definir: uma democracia compacta, fundada na aparência sobre a ditadura das pessoas proletárias, mas onde o povo não têm poder senão aquele que é necessário para assegurar a servidão universal, segundo fórmulas e máximas emprestadas ao antigo absolutismo: 

Indivisão do poder;

Centralização absorvente;

Destruição sistemática de todo pensamento individual, corporativo e local, reputado dissidente;

Polícia inquisitorial;

Abolição ou pelo menos restrição da família, tanto mais da hereditariedade.

O sufrágio universal organizado de maneira a servir de sanção perpetua a esta tirania anônima, pela preponderância de pessoas medíocres ou mesmo nulas, sempre em maioria, sobre as pessoas cidadãs capazes e os caráteres independentes, declaradas suspeitas e em menor número. A escola marxista declarou-se bem alto: é contra a aristocracia das capacidades.

 

Da espontaneidade

O que importa destacar nos movimentos populares é sua perfeita espontaneidade. O povo obedece a uma excitação ou sugestão externa ou sim a uma inspiração, intuição ou concepção natural? Eis, no estudo das revoluções, o que não se saberá determinar com suficiente precisão. Sem dúvida a idéia que em todas as épocas agitaram o povo manifestaram-se anteriormente bi cerebro de alguma pensadora; no que diz respeito a idéias, opiniões, crenças, erros, a prioridade jamais foi das multidões e isso não poderá ser de outra forma hoje. A prioridade, em todo ato do espirito, está na individualidade; a relação dos termos o indica.

Mas falta muito para que todo pensamento de que se apodera o indivíduo se aposse mais tarde das populações; entre as idéias que as empolgam, fala muito para que elas sejam justas e úteis; e nós dizemos precisamente que o que importa sobretudo a hitoriadora filosofa é observar como o povo se liga em certas idéias mais que em outras, generaliza-as, desenvolve-as à sua maneira, delas faz instituições e costumes que segue tradicionalmente, até que elas caem nas mãos das legisladoras e pessoas da justiça qie por sua vez fazem artigos de lei e normas para os tribunais.

 

A revolução não é obra de ninguém

Uma revolução social com as ocorridas nos séculos XVIII, XIX e XX, que sobre nossos olhos, a democracia operária continua, é uma transformação que se efetua espontaneamente ni conjunto e em todas as partes do corpo político. É um sistema que se substitui a um outro, um organismo novo que substitui uma organização decrépita.

Mas essa substituição não se faz num instante, como uma pessoa que muda de roupa ou vira a casaca; ela não acontece com a ordem de uma senhora que tem sua teoria toda acabada ou sob a inspiração de uma revelação.

Um revolução de fato orgânica, produto da vida universal, mesmo que tenha suas mensageiras e suas executoras, não é de fato uma obra de ninguém.

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