Esta é uma questão pertinente já que hoje em dia a anarquia como filosofia política se tornou uma referência. Os movimentos anarquistas inspirados na anarquia crescem por todas as partes; as bases anarquistas - autonomia, associação voluntária, autogestão, ajuda mutua - são encontrados em acordos dos movimentos de ação global como numa variedade de movimentos radicais em qualquer parte do planeta. Revolucionárias no México, Argentina. Índia, Kobane, Sudão e outros lugares abandonam os discursos de tomada do poder e estão a reformular o que seria uma revolução, em conceitos diferentes, mais abertos, livres e não-impositivos. Muitas ainda usam de forma tímida, a palavra “anarquia/anarquista”, mas já é notado que o anarquismo vem ocupando de forma mais que o suficiente espaços que o comunismo autoritário/marxismo mantinha nos movimentos sociais dos anos sessenta do século passado.
Inclusive muita daquelas que não se consideravam a si mesmas anarquistas, estão a se definir em relação a isso e se inspirar com a anarquia.
Porém, isso não se reflete nas universidades. A maioria das pessoas acadêmicas possuem ideias vagas sobre a anarquia, ou, rejeitam a anarquia, sobre superficialidades (Organização anarquista?... Não seria um paradoxo?...). O marxismo em suas facções há muitas acadêmicas por todos os cantos, o que não é o caso da anarquia, que há poucas assumidas.


Será uma questão de tempo? Possível. Quem sabe mais alguns anos, teremos uma explosão de anarquistas, mas isso é pouco provável. O marxismo possui uma afinidade “teocrática” com a universidade que o anarquismo nunca terá. Trata-se do único grande movimento social inventado por uma pessoa acadêmica, que logo se converte em movimento de ascensão totalitária. Muitos escritos sobre trajetória da anarquia sugerem que suas origens são similares ao marxismo: o anarquismo seria a elaboração criativa das pessoas pensadoras do século XIX - Proudhon, Bakunin, Kropotkin e outras - fonte de inspiração para organizações de trabalhadoras, envolvidas em lutas políticas, se partindo… em correntes/partidos (!)… O anarquismo, nos relatos mais gerais, é tido como o parente pobre do marxismo, teoricamente fraco, mas compensado, sem dúvidas, por sua sinceridade, paixão, ética e moral. Essa analogia é muito forçada! As pessoas “iniciadoras” do século XIX nunca acreditaram em que tinham inventado algo particularmente novo. As bases da anarquia – autogestão, associação voluntária, ajuda mútua - são referências de comportamento humano que entendiam ser resultado das transformações das relações humanas em sua jornada no planeta. O mesmo se pode dizer sobre a rejeição do Estado e de todas as formas de violência estrutural, desigualdade ou dominação (anarquia é “sem governo”), como também o reconhecimento de que todas essas formas se relacionam e se reforçam em certos aspectos. Essas ideias nunca se apresentaram como a semente de uma nova doutrina, de uma ideologia. E de fato, não eram: se pode encontrar uma constante de pessoas que defendem esses conceitos ao largo do tempo, embora que tudo mostre que por todo momento e lugar, essas opiniões raramente se expressavam por escrito. Referimos-nos, por isso, menos num corpo teórico que em uma atitude, na ação que pode ser considera “fé”: a rejeição de determinadas relações sociais, a confiança em outras que serão muito melhores para construir uma sociedade sustentável, uma crença de que tal sociedade poderia realmente existir.
Se também comparar as escolas conceituais do marxismo com o anarquismo, se observa projetos diametralmente diferentes. As correntes marxistas possuem pessoas “proprietárias”, autoras! Assim como o marxismo surgiu da mente de Marx, do mesmo modo temos leninistas, maoistas, trotskistas, gramscianos, morenistas, luxemburguistas… uma miríade de “iluminattis”. Pierre Bourdieu expressou em certa ocasião que se o mundo acadêmico fosse um jogo em que as pessoas experientes lutassem por poder, qualquer uma saberia que ganhou quando essas mesmas pessoas começassem a formular um adjetivo a partir de tal nome. É precisamente para preservar a possibilidade de ganhar esse jogo que as pessoas “intelectuais” insistem em continuar usando em suas discussões teorias de fatos temporais de tipo “Grande Homem = hetero e cis normativa, binária, patriarcal, machista”, superados outros contextos. As ideias de Foucault, com as de Trotsky, nunca são tratadas como produto direto de um certo meio intelectual, resultado de conversas intermináveis e de discussões com centenas de participantes, mas como obra de uma só pessoa genial homem… raramente de outra possibilidade de gênero.

texto completo no jornal anarquista A-Info 76

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