As abstrações humanas podem mover a um sujeito a se retrair, a olhar inclusive a épocas passadas, e o Homo nostálgico, pode ver com agrado o tempo em que se pendurava nas árvores, quando disputava um frango, ou nadava no charco. Outros se enveredam por um futuro incerto, e compondo um Homo positivista se dedicam ao culto do progresso continuo, a uma civilização cujos cimentos são compostos com sangues e ossos. Este sujeito acredita que o mundo que imagina seja o melhor possível, e a sua chegada é inevitável. Faz orgulhoso disso e zelador desse projeto, mantendo seu charco, seu lodo e sua arvore, tanto como o outro faz com sua quimera, sua expectativa e sua industria. O problema é  quando o homem não está contente em ser criador de seu próprio mundo, de suas fantasias e suas ilusões; não se conforma com isso e além disso, compartilha sua insegurança e seus medos com os outros.
Mas, o que tem de ruim nisso?
Assim que é possível, todos queremos compartilhar nossas conclusões, comparar com as dos demais e ver quanto isso se confere com o mundo exterior... O problema surge quando esse processo não se realiza de forma voluntária, e existem muitas formas da voluntariedade seja interferida ou subjugada. Aqui abordarei apenas três: Uma delas é clássica, a saber, mediante força bruta: um porrete na cabeça, a baioneta nas tripas ou a bomba atômica sobre as cabeças... Tudo isso move a gente tomar decisões que voluntariamente, livre de pressões do meio, não tomaria.


Outro método é a escassez material: corte de um indivíduo todo o meio de manter vivo e terás um fiel cão doméstico;  dando-lhe um rendimento, pouco, mais regular, e te elevará a Deus; se apropriando da riqueza que ele produz e ele será teu escravo. A opressão econômica obriga a gente se comportar e a agir contrariamente as livres disposições que dispunham. O terceiro método é o engano – isto se produz mesmo sem ter que usar mentiras especificas. Surge quando um indivíduo ou grupo de indivíduos se convence de que é aquilo que voluntariamente não escolheram e nem decidiram ser. Quando um indivíduo se confirma que de forma inatural, endêmica, inata, é isso ou aquilo outro, quando sua mente virgem de criança é massacrada por crenças, tradições, fé, culto a uma lei, oficiosa ou oficial, mas sempre sagrada, quando o indivíduo é absorvido pelas crenças de outro sujeito, escolhido no coletivo pela força do número, e o inculca a submissão a toda sorte de elucubrações pessoais transvestidas em generais, devemos contemplar, indiferentes ou compadecidos, o sacrifício de um ser mutilado no altar da abstração coletiva.
Este processo que tem movido o anarquista a rechaçar toda abstração majestosa que tenha tratado de se impor sobre o indivíduo sem seu consentimento explicito. Está é uma postura consequente do anarquista – comumente – antiteológico em religião, niilista em filosofia, herético em doutrinas, iconoclasta temperamental, associal quando o rebanho te obriga, antipolítico ante ao poder que reina sobre a polis, austero que abomina o rei-ouro, socialista que aborrece o capital com status de Deus, e apátrida que gosta de gargalhar do nacionalismo quando nos tempos de tormenta e chuvas de bandeiras.
Em consequência em digo, que existem duas dimensões dentro das abstrações: as individuais, diante que nada temos o que objetar; e as coletivas, só invalidas quando o átomo individual é obrigado a se unir ao receituário da dita composição química.

Leia texto completo no jornal anarquista A-Info 74

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